Do Capitalismo para o Digitalismo





Do Capitalismo para o Digitalismo
Fernando Penim Redondo
Maria Rosa Redondo




Nota do Editor

«Já há talvez demasiados livros que abordam, de forma sensacionalista, o impacto social das tecnologias da informação e da comunicação. Do Capitalismo para o Digitalismo, cujos autores conviveram ao longo de dezenas de anos com os avanços tecnológicos, dispensa-se de fazer mais uma descrição. Em vez disso, procura desvendar os mecanismos que, insensivelmente mas de forma imparável, actuam ao nível das relações de produção no sentido de superar, para o bem ou para o mal, a sociedade capitalista em que todos nascemos. Pretende mostrar por que razão o trabalho assalariado, quase sempre repetitivo, atravessa urna profunda crise que as pessoas e as instituições tardam em reconhecer. Face às perplexidades da transição em que vivemos, propõe que repensemos muitas das ideias feitas e mesmo as teorias que têm enformado a análise social e a luta política e sindical. »


Links de Referência

Apresentação do livro por Mário de Carvalho

Revisionismos por Francisco Sarsfield Cabral

Do Capitalismo para o Digitalismo por Beja Santos

Outras informações

Editora: CAMPO DAS LETRAS (Campo da Actualidade)
1ª Edição: Novembro de 2003
Páginas: 182
Peso: 300 gr.
Formato: 14x21 cm
ISBN: 9726107393

2 comentários:

Anónimo disse...
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Anónimo disse...

Achei interessante a abordagem de repensar a teoria do valor de Marx confrontando-a com a emergência da sociedade do conhecimento (cap.3). E o suporte estatístico sobre Portugal para justificar os pontos de vista.

Contudo, discordo de um conjunto de aspectos.

A) Os meus pontos críticos sobre a abordagem são os seguintes:

1) Creio que o livro está muito marcado pela vossa preocupação de partir do marxismo sem o "trair", para o aprofundar, reajustar e aggiornar no campo da economia política (pag 11). Em virtude de estar muito focalizada a
abordagem, ela poderá limitar o público leitor. Vocês estão falando sobretudo para dentro do campo dos ainda marxistas (mais ou menos dogmáticos) de duas gerações - a minha e vossa dos anos 50 a 70 e a seguinte.

Eu teria preferido uma abordagem para fora. Justamente para aqueles - como vocês próprios referem - cuja relação intelectual e de experiência de vida nada tem a ver com essa visão do mundo, por terem entrado na economia ou na
política nos anos 80. Independente das nossas convicções e da nossa experiência, para essa camada - que é o futuro nos movimentos sociais e na liderança - o assunto do marxismo resumir-se-á a um capítulo de história não mais.

2) O pensamento de reflexão sobre as transformações ser atribuído "em grande medida aos pensadores conservadores" (pg.33). Como referido no artigo que vocês colocam em Anexo, as grandes mudanças na abordagem da gestão foram
justamente feitas por pensadores a contracorrente, que nada de conservador tinham.

3) A base social do novo modo de produção a que se referem como sendo os trabalhadores do conhecimento, é uma nebulosa em que estão muitas camadas sociais, e segundo alguns estudiosos que pegaram nessa abordagem de Drucker podem observar-se já linhas de fractura e contradições fundamentais que poderão gerar as "lutas de classe" centrais deste século - entre a grande massa de tecnólogos, por um lado, e, por outro, uma camada dirigente
emergente capaz de retirar o grosso dos proveitos económicos e do poder politico. Vejam por exemplo o trabalho do canadiano Roger Martin http://gurusonline.tv/es/conteudos/martin2.asp
É por isso pouco provável que os especialistas de todos os saberes se unam, para retomar o apelo do Manifesto.

4) Sobre ser a altura das teorias de raíz marxista fazerem as pases com o mercado.

Os hungaros andaram a fazê-lo ainda no tempo da ocupação soviética, mas não ganharam massa crítica. Os chineses fizeram isso desde o final dos anos 70, logo após o afastamento do bando dos quatro, após a morte de Mao. As
chamadas "reformas" chinesas foram isso mesmo. E estão a permitir a transição actual para uma grande potência económica emergente a nível mundial (o que de Staline a Brejnev se tentou fazer na URSS com base no socialismo real e na ambição hegemónica baseada numa ideologia alternativa,
os chineses estão a fazê-lo com este híbrido, ironia da história).


Os aspectos em que discordo em questões de fundo:

1) A ideia de que se assiste à emergência de um novo modo de produção que vocês denominam de "digitalismo"

Pode ser tentador pensar que o capitalismo está na sua fase última, já no pós amadurecimento que provavelmente se deu nos anos 70 por altura dos choques petrolíferos e da massificação da revolução informática. E que, por isso, como diria Lenine, na fase de "putrefação". Com afloramentos do seu sucessor.

Não creio que a questão seja essa. A sociedade do conhecimento não se resume ao espaço digital que emergiu com força nos anos 90, na parte final do ciclo longo da revolução informática. O digitalismo (o conceito começou a nascer com Don Tapscott em torno da ideia de economia e sociedade digital, mas ele não o tornou em ismo) é um ponto de passagem neste ciclo longo.

A sociedade do conhecimento vai sobretudo emergir e amadurecer no novo ciclo longo (de Kondratieff) que provavelmente se iniciou recentemente no pós rebentar da bolha da Nova Economia, e associado às implicações de uma vaga de inovações recentes (nova proposta de Web por Tim berners lee e Vinton Cerf, genética e genómica, crescimento da interactividade humana a níveis jamais vistos quer por efeito da Internet como do cosmopolitismo crescente,
das viagens e intercâmbios, do papel dos novos espaços económicos, etc).




2) De que se trata de uma janela de oportunidade de transição para o comunismo - o digitalismo como via para o comunismo.

Creio que é um velho erro idealista olhar a história com um destino final, e ver as formas emergentes - no século XIX e primeira metade do XX, o socialismo - como ponto de transição para a utopia. Os idealistas anteriores
a Marx viam o destino final de outra forma. Mas o mecanismo ideológico era o mesmo. Marx foi um crítico dessa ideologia idealista, mas acabou por se deixar vencer pela utopia. Os pragmáticos fizeram um híbrido entre a utopia e a questão do poder e por isso tomaram o poder (Lenine), e os que sucederam na gestão desse novo poder pragmaticamente entenderam que o socialismo como sociedade altermativa tinha de se livrar rapidamente da utopia (socialismo
num só país de Staline contra Trotsky, oposição ao desvio esquerdista de Mao pelos reformistas).

A história nunca se moveu por esas janelas de oportunidade, apesar do crescimento da consciência cívica dos povos e de uma parte dos dirigentes políticos particularmente no séc XX.

Tal como a sociedade do conhecimento não o será. O Comunismo é uma utopia já datada. Como utopia desempenhou o seu papel histórico, mas passou a ser um capítulo da história. A socidedade do conhecimento ainda não está madura
para gerar um ismo ou criar alguma utopia.

Não foram os servos da gleba que derrotaram o feudalismo, mas os burgueses, que começaram por ser mercantis. Não foram os proletários que derrotaram o capitalismo, mas este está a ser corroído - "decomposto" como vocês dizem -
por uma camada emergente da classe média e da classe média alta ligada à "propriedade" do conhecimento.

Não é liquido que estes "trabalhadores do conhecimento" sejam uma classe com um desígnio histórico, ou seja que possam ganhar consciência de si, do seu papel histórico. Tudo indica que são uma nebulosa com várias camadas, e que
poderá "partir-se" em dois blocos que irão disputar o poder e o bolo.

3) Que o "socialismo real" foi prematuro.

Não foi. Foi o que podia ser uma ideia utópica como a de uma fase de transição para o comunismo no contexto histórico do início do século XX. O socialismo verificou-se justamente no elo mais fraco do capitalismo e do
imperialismo da época - primeiro a Rússia nos anos 10 e depois a China nos anos 30 e 40.

A questão essencial nunca foi a utopia nem a economia, mas a questão da tomada do poder. O desígnio do movimento político marxista era a tomada do poder - o contrário desta visão era "reformismo". Foi aí que Lenine inovou - ao perceber isso e ao criar uma forma de organização e de gestão politica baseada numa rede de profissionais da política para a tomada do poder (os revolucionários profissionais num partido centralizado e unido pela
confiança mútua na ideologia e não em cargos nobiliárquicos ou de riqueza, e a rede à distância baseada na alavanca que eram os media impressos como a Iskra e a agit-prop ambulante).

Em meados do século XX, o socialismo já não teria surgido - precisamente pelo "avanço" das forças produtivas no capitalismo desenvolvido e mesmo em muitos países em desenvolvimento (que entretanto começaram a ser chamados de
terceiro mundo). Foi o capitalismo, para usar uma expressão de Drucker, que realizou algumas promessas do socialismo, por mais herético que isto possa parecer.

4) Preservar a credibilidade das teorias marxistas e de os trabalhadores de hoje se reverem nelas (pg.84)

Hoje já não faz sentido. Tal como Marx cortou com a economia clássica e a filosofia hegeliana, não procurando "reajustá-las", mas sim criar um novo
paradigma. Foi porque ele fez essa ruptura que conseguiu criar um ismo e uma corrente mundial.

A questão não é trair Marx. A formação e vivência da maioria das gerações que se revoltaram contra o capitalismo e o imperialismo do final do século XIX e de grande parte do século XX foi marcada pelo marxismo. É um "acquis"
(para usar a linguagem da UE) para duas gerações. Mas não é "extensível" ao resto. É um produto da história e por isso perecível.

Os próprios ideológos da economia política do capitalismo do século XX foram perecíveis - e é dificil encontrar algum à altura de Marx (do século XIX);
Keynes foi excepção, ou Schumpeter, mas esse sempre foi a contracorrente, estava fora do circuito da ideologia dominante. Homens como Friedman já ninguém fala nele.


Um tema interessante a aprofundar:

A ideia-hipótese dos projectos cooperativos (pg.75). Eu teria apostado em desenvolver esse ponto e ter procurado na realidade (pois é a prática da gestão e empresarial que comanda)sinais e sintomas, protótipos dessa hipótese de empreendedorismo colectivo.

E avaliar esta hipótese em relação às vagas de start ups desde os anos 70, de que vocês referem na pg. 102.

JNR